Anitta celebra a herança afro-indígena da música brasileira no álbum ‘EQUILIBRIVM’
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| Capa do álbum EQUILIBRIVM Foto: Divulgação |
Há algo profundo em EQUILIBRIVM, novo álbum da Anitta. Não é apenas um conceito abstrato de “equilíbrio” como o título possa sugerir. É um gesto calculado de reposicionamento. Depois de anos focando no mercado global, a cantora retorna ao Brasil não porque desistiu de trabalhar sua carreira internacional, mas como estratégia. Ela percebe que, para se tornar um ícone global, ainda mais em um momento em que a “estética brasileira” se encontra em alta no exterior, é preciso primeiro ser extremamente local e mostrar ainda mais da história do seu povo e da sua cultura, cultura esta que veio antes do imaginário gringo sobre a música brasileira, que é baseado principalmente na bossa nova e no samba, mas sem ter conhecimento de que o samba nasceu a partir de tradições trazidas por africanos escravizados, principalmente de regiões como Angola e Congo.
A abertura com a faixa “Desgraça” já indica que o álbum não está interessado em conforto. Há uma escolha de tirar o ouvinte um pouco do conforto, por começar no caos, o que ecoa não só a ideia de desequilíbrio inicial, mas também a própria formação violenta da cultura brasileira. Em vez de suavizar, a artista parece encarar esse ponto de partida com crueza.
“Mandinga”, “Bemba” e “Nanã” aprofundam esse caminho ao mergulhar em referências afro-brasileiras, especialmente ligadas a religiosidades como o candomblé e a cultura iorubá, algo que já vinha sendo explorado pela cantora, como por exemplo no clipe de “Aceita” (2024), mas que aqui ganha centralidade simbólica. Não é apenas estética, é uma tomada de posição. Ao trazer essas referências para o centro de um álbum com intencionalidade global, a carioca desafia diretamente a lógica histórica de marginalização dessas culturas. Mas há também uma ambiguidade aí. Se por um lado o disco celebra essas raízes, por outro ele nunca abandona completamente o viés do pop internacional.
Faixas como “So Much Love” e “Pinterest” funcionam quase como pontes a um mercado que ainda exige uma linguagem mais aceitável. Esse “equilíbrio”, portanto, não é neutro: ele revela uma tensão constante entre autenticidade e exportação. E talvez seja justamente nessa contradição que o álbum ganha força.
“Caminhador” e “Deus Existe” parecem ser o coração filosófico do projeto, onde a espiritualidade deixa de ser apenas referência estética e passa a ser reflexão. A própria artista já indicou em entrevistas que há uma busca por entender Deus e a jornada individual dentro do disco e isso se traduz numa tentativa de transformar o álbum em narrativa, não apenas uma coleção de faixas.
Já “Caso de Amor” e “Ternura” funcionam como respiros emocionais, mas sem cair na superficialidade. Há uma tentativa de humanizar essa jornada, de lembrar que equilíbrio também passa pelo afeto. Ainda que essas músicas, por vezes, soem mais próximas do pop tradicional e menos arriscadas dentro do conceito geral.
Quando o álbum chega na música “Várias Quejas”, versão em espanhol de “Várias Queixas” do grupo Olodum, que foi popularizada no Brasil na voz do grupo Gilsons, e na música “Choka Choka”, o projeto se expande geograficamente. A presença de outros idiomas e uma colaboração internacional com ninguém mais e ninguém menos que a cantora colombiana Shakira reforça a proposta de diálogo entre culturas, mas sem abandonar a base brasileira.
“Mesmo em sua faceta mais global, Anitta insiste em carregar o Brasil consigo. Seja no ritmo, na língua ou na identidade das personagens que constrói.” - Pitchfork
E então vem “Ouro”. Encerrando o álbum, o mantra funciona quase como síntese: depois do caos, da espiritualidade, do amor e da tensão entre mercados, a faixa eleva o astral do ouvinte e busca mostrar algo precioso nessa mistura toda. É um fechamento que não resolve completamente as contradições do disco, mas talvez nem seja esssa a intenção. Porque EQUILIBRIVM não é sobre estabilidade. É sobre negociação.
Anitta parece entender que a identidade brasileira, especialmente quando falamos da afro-indígena, não é algo fixo, puro ou isolado. É um campo de disputa, de mistura e principalmente de adaptação. E, ao trazer isso para o centro de um álbum com projeção internacional, ela transforma o que poderia ser apenas mais um projeto genérico de sua carreira em algo mais complexo: uma obra que questiona, ainda que dentro dos limites da indústria, o lugar do Brasil no mundo.
Se há um risco aqui, é o de que essa profundidade se perca na própria necessidade de alcance global. Mas, mesmo assim, podemos afirmar que o EQUILIBRIVM se impõe como um dos trabalhos mais ambiciosos da carreira da artista. não por ser perfeito, mas por ousar tentar romper as estruturas que a própria ajudou a consolidar.
No fim, o equilíbrio que o álbum propõe talvez nunca seja alcançado.
E é justamente isso que o torna interessante.














Um TCC não quer fazer né viado
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